Nenhum de nós sabe, realmente, o que pensar e como encarar os acontecimentos. As notícias sobre os judeus não nos tinham tocado de perto até hoje, e achávamos melhor nos conservar tão alegres quanto possível. Uma vez ou outra, quando Miep deixava escapar o que havia acontecido com algum amigo, mamãe e a sra. Van Daan punham-se a chorar; por isso, Miep achou melhor não contar mais nada. Mas Dussell foi crivado de perguntas, e as histórias que nos contou foram tão horrendas e apavorantes que nos será impossível tirá-las da cabeça.
Ainda assim, teremos de brincar e gracejar, uns com os outros, quando todos esses horrores forem se apagando um pouco de nossas mentes. De nada nos adiantará, e nenhum bem fará aos outros lá de fora a tristeza que reina aqui neste momento. E qual seria o objetivo de fazer do nosso Anexo Secreto o Anexo Secreto da Tristeza? Será que devo pensar constantemente naquela outra gente? E se tiver vontade de rir de alguma coisa, terei de me conter e sentir-me envergonhada por estar alegre? Deverei chorar o dia inteiro? Não, não posso fazer isso. Além do mais, com o tempo, a tristeza vai se dissipando.
Adicionada a toda essa miséria há outra, de caráter inteiramente pessoal e que me parece ínfima, insignificante diante daquelas desgraças que acabo de lhe contar. Mesmo assim, não consigo me conter, e quero lhe dizer que, ultimamente, comecei a me sentir abandonada. Sinto um vazio tão grande à minha volta! Nunca me senti assim, minhas brincadeiras, amigos e divertimentos ocupavam todos os meus pensamentos. Agora, ou penso em coisas tristes, ou em mim mesma. E, finalmente, descobri que papai, embora seja um amor, não consegue ocupar o mesmo lugar que tinha em meu pequeno mundo dos dias passados. Mas por que fico a aborrecê-la com tanta tolice? Sou uma ingrata, Kitty, bem sei. Mas fico confusa quando me perturbam demais, e, ainda por cima, não consigo parar de pensar em todas aquelas outras misérias!