A atmosfera daqui é extremamente tensa. Pim já atingiu o ponto máximo. A sra. Van Daan está de cama, resfriadíssima, assoando-se e fungando; o sr. Van Daan está pálido e com ar cansado, e Dussel, obrigado a abrir mão de diversos confortos, reclama de tudo com todos.
Não há dúvida de que não estamos em maré de sorte. A privada está vazando, e a arruela da torneira quebrou, mas, felizmente, devido às boas relações que temos, logo consertaremos tudo.
Eu sei que, às vezes, sou sentimental, mas há razão de ser sentimental, aqui, uma vez ou outra. Por exemplo, quando Peter e eu nos sentamos juntos num caixote de madeira, no meio de entulho e de poeira, abraçados, muito juntos, ele com um cacho de meus cabelos na mão; quando os passarinhos cantam lá fora; quando a gente vê as árvores se enchendo de folhinhas verdes e o sol nos convida a sair para o ar livre; quando o céu é tão azul — nesses momentos, como desejo tanta coisa!
Aqui só encontro caras emburradas e descontentes, são só queixas, lamentos reprimidos; a impressão é de que, subitamente, ficamos em má situação. A verdade é que as coisas são más quando a gente as faz más. Ninguém aqui dá bom exemplo. Eu acho que todos deviam pelo menos procurar dominar seus maus humores. Todos os dias é a mesma xaropada: "Se ao menos isto acabasse!"
Meus estudos, minha esperança, meu amor, minha coragem, tudo isto me conserva de cabeça erguida e me impede de lamentar-me.
Kitty, acho que hoje estou um tanto biruta e não sei por quê. Tudo aqui está muito confuso, nada mais tem nexo e às vezes duvido mesmo que no futuro alguém venha a se interessar pelas minhas baboseiras.
O título de toda essa xaropada poderá ser: Desabafos de um patinho feio. Certamente meu diário não vai ser de grande utilidade para os senhores Bolkenstein ou Gerbrandy [24].