Recebi isto de Margot, na noite passada:
"Querida Anne
Depois de sua carta de ontem, tive a desagradável impressão de que você ainda terá dramas de consciência cada vez que visitar Peter. Acredite, sinceramente, não há razão para isso. Do fundo do coração, sinto que preciso de alguém em quem confiar inteiramente, mas não escolheria Peter como meu confidente.
Sinto, tal como você diz, que Peter é um pouco meu irmão, mas um irmão mais moço. Talvez uma afeição fraterna pudesse crescer entre nós, talvez cresça mais tarde ou talvez não cresça nunca, mas é claro que ainda não chegou a esse ponto.
Portanto, você não precisa mesmo ter pena de mim. Agora que encontrou companheirismo, aproveite o mais possível".
Isto aqui vai se tornando cada vez mais maravilhoso. Sabe, Kitty, acho que teremos um grande amor no Anexo Secreto. Não se preocupe, não estou pensando em casar com ele. Não sei como é que ele vai ser quando ficar mais velho, nem se algum dia nos amaremos o suficiente para casar. Sei, agora, que Peter me ama; de que modo, porém, eu mesma não sei ainda.
Se ele me quer apenas como uma grande amiga, ou se o atraio como menina, ou irmã, não descobri ainda.
Quando ele disse que sempre o auxilio nas brigas com os pais, fiquei muito contente; foi um passe para que eu acreditasse em sua amizade. Perguntei-lhe ontem o que faria se aqui existisse uma dúzia de Annes que vivessem atrás dele. Respondeu-me: — Se fossem todas como você, não seria tão mau. — É muito gentil comigo e acredito que gosta de me ver. Tem estudado francês com afinco, mesmo quando vai para a cama às dez e quinze. Quando penso na noite de sábado e recordo tudo o que dissemos, palavra por palavra, pela primeira vez não me sinto descontente comigo, isto é, eu diria exatamente o que disse, não desejaria mudar nada, como em geral acontece.
Ele é lindo, tanto quando ri como quando está sério, olhando para a frente; é mesmo um amor e tão bom! O que mais o surpreendeu a meu respeito foi descobrir que não sou a Anne superficial e fútil que pareço, mas uma criatura sonhadora, com as mesmas dificuldades que ele sente.
Resposta:
"Querida Margot
Creio que o melhor a fazer é esperar e ver o que acontece. Não vai demorar muito para Peter e eu chegarmos a uma decisão; ou continuamos como antes, ou seremos diferentes. O que acontecerá, nem eu mesma sei e não tento enxergar muito adiante de meu próprio nariz. De uma coisa, porém, tenho certeza: se Peter e eu decidirmos ser amigos, direi a ele que você gosta muito dele e estará sempre disposta a ser sua amiga e a ajudá-lo no que for preciso.
Pode ser que isso não seja o que você deseja, mas, agora, pouco me importa. Não sei o que Peter pensa de você, mas na ocasião perguntarei.
Estou certa de que só pode ser coisa boa. Se vier para junto de nós, na água-furtada, ou onde quer que estejamos, será sempre bem-vinda. Honestamente, não vai nos atrapalhar, pois sinto que temos um acordo tácito de falar somente à noite, quando já está escuro.
Conserve a coragem! Faça como eu. Apesar de não ser fácil; seu tempo pode chegar antes do que pensa.