Ontem à noite, antes de adormecer, sabe quem me apareceu? Nada mais nada menos do que Lies!
Eu a vi, à minha frente, vestida de trapos, com o rosto magro e abatido. Seus olhos pareciam enormes, e olhou para mim com tanta tristeza e reprovação que eu pude ler seus pensamentos: — Oh, Anne, por que me abandonou? Socorro! Ajude-me! Tire-me deste inferno!
E não a posso socorrer. A única coisa que posso fazer é ver os outros sofrendo e morrendo e pedir a Deus que nos devolva Lies.
Vi apenas Lies, ninguém mais. Julguei-a mal. Eu era criança demais para entender suas dificuldades. Ela se afeiçoara a uma nova amiga, e devo ter-lhe dado a impressão de que a queria tomar. Pobre menina, imagino como deve ter-se sentido, pois conheço muito bem esta sensação!
Às vezes, num relance, percebia algo de sua vida, porém logo estava egoisticamente absorvida em meus próprios dilemas e prazeres. Foi horrível de minha parte tratá-la assim. Agora ela olha para mim tão impotente, com o rosto pálido e os olhos suplicantes! Se eu, ao menos, pudesse socorrê-la!
Oh, meu Deus! Tendo eu tudo o que desejo, e vê-la, assim, abatida por um destino terrível! Não sou melhor do que ela; ela também desejava fazer o que era direito. Por que teria sido eu escolhida para viver e ela, provavelmente, para morrer? Qual a diferença entre nós? Por que tão longe uma da outra, agora?
Sinceramente, há meses não pensava em Lies, talvez um ano. Não que a tivesse esquecido, porém nunca mais me lembrara dela dessa maneira, até que a vi à minha frente, em toda a sua miséria!
Oh, Lies, tenho esperança de que, vivendo até o fim da guerra, você possa voltar para junto de nós para que eu a receba e faça tudo para compensar o mal que lhe causei.
Mas quando estiver ao meu alcance socorrê-la, talvez não necessite do meu auxílio tanto como agora. Será que de vez em quando ela pensa em mim? Se pensa, o que sentirá?
Senhor! Defendei-a para que, ao menos, não esteja só. Oh! se ao menos Vós pudésseis dizer-lhe que penso nela com carinho e piedade, talvez tivesse mais forças para resistir.
Não devo pensar mais nisso porque esse sofrimento não me levará a nada. Continuo a ver seus olhos enormes, não consigo livrar-me deles. Será que Lies tem fé em si mesma, mas uma fé profunda e não apenas aquela que lhe foi imposta?
Nem isso eu sei; nunca me dei ao trabalho de lhe perguntar.
Lies, Lies, se ao menos eu pudesse ir buscar você, compartilhar com você tudo o que tenho. Agora é tarde. Já não posso reparar o mal que fiz. Mas não hei de esquecê-la de novo e rezarei sempre por ela.