Jamais esqueci meu sonho com Peter Wessel (veja o começo de janeiro). Se penso nele, até hoje sinto seu rosto junto ao meu e recordo a deliciosa sensação que tornava tudo tão bom.
Algumas vezes, aqui, junto de Peter, tive esta mesma sensação, nunca, porém, tão intensa, até ontem, quando estávamos sentados no divã, cada um com o braço passado à volta da cintura do outro. De repente desapareceu a Anne de sempre e uma segunda Anne tomou seu lugar, uma Anne que não é nada estouvada e brincalhona, mas só deseja amar e ser carinhosa.
Ali sentada bem juntinho dele, senti que me invadia uma onda de emoção, e lágrimas saltaram de meus olhos. A da esquerda foi pingar nas calças dele e a da direita, depois de rolar pelo meu rosto, caiu no mesmo lugar. Será que ele notou? Não fez o menor movimento, nem deu sinal de ter percebido. Será que ele sente do mesmo modo que eu? Não disse uma palavra. Peter saberá que tem duas Annes junto a si? Estas perguntas ficarão sem resposta
Às oito e meia levantei-me e fui à janela onde sempre nos despedimos. Ainda tremia, ainda era a Anne número 2. Ele veio para junto de mim, atirei os braços à volta de seu pescoço, beijei-lhe a face direita e ia beijar-lhe a outra face quando nossos lábios se encontraram e nós os apertamos. Num instante, estávamos presos nos braços um do outro, outra vez e mais outra vez ainda; não podíamos mais nos separar. Oh, Peter precisa tanto de carinho! Pela primeira vez na vida descobriu uma menina e viu que mesmo as meninas mais irritantes possuem um outro lado, têm coração e podem se tornar diferentes quando se está a sós com elas. Pela primeira vez na vida, deu-se a si mesmo, e, nunca tendo possuído um amigo ou amiga, mostrou naquele momento seu verdadeiro eu. Agora nos encontramos. Para ser franca, eu também não o conhecia, pois também não tive amigos em quem confiar. Veja você o que aconteceu!
Ainda uma vez assalta-me a mesma pergunta: "Será direito? Será direito ter cedido tão depressa, ser tão fogosa, tão ardente e impetuosa com o próprio Peter? Será que uma menina como eu deve deixar que as coisas cheguem a esse ponto?" Só existe uma resposta: "Tenho desejado tanta coisa por tanto tempo, sou tão sozinha, e agora achei consolação".
Durante a manhã agimos como de costume, à tarde, mais ou menos (a não ser ocasionalmente); mas, à noite, sobem à tona todos os anseios reprimidos durante o dia, a felicidade e as lembranças deliciosas das vezes anteriores, e nós só pensamos um no outro. Toda noite, depois do último beijo, minha vontade é correr para bem longe, não olhar mais para seus olhos — ir para longe, muito longe, sozinha na escuridão.
E o que é que tenho de enfrentar quando chego ao último degrau da escada? Luzes, perguntas, risos; preciso engolir tudo isso sem deixar transparecer nada. Meu coração ainda está sensível, não posso me refazer assim de repente de uma emoção como a que senti ontem. Aquela Anne que é carinhosa mostra-se muito pouco e por isso teme, subitamente, ser passada para trás. Peter tocou profundamente em minhas emoções como jamais alguém o fizera, a não ser em meus sonhos. Peter tomou conta de mim, virou-me do avesso; é compreensível que se precise de um pouco de tranqüilidade e repouso depois de tamanha reviravolta.
Oh, Peter, o que foi que você fez comigo? Que quer de mim? Aonde nos levará tudo isso? Agora compreendo Elli; agora que estou passando por isso compreendo melhor suas dúvidas. Se eu fosse mais velha e ele me pedisse em casamento, que responderia? Vamos, Anne, seja sincera! Você não aceitaria casar com ele e, no entanto, como seria penoso ter que deixá-lo! Peter ainda não tem personalidade definida, bastante força de vontade; tem pouca coragem e força. Bem no íntimo é ainda uma criança; não é mais velho do que eu e está à procura de tranqüilidade e felicidade.
Será mesmo que só tenho catorze anos? Será que na realidade não passo de uma garotinha de escola? Que a minha experiência é tão pouca a respeito de tudo? No entanto, tenho mais experiência que muita gente; passei por coisas que quase ninguém de minha idade passou. Tenho medo de mim mesma, medo de me entregar depressa demais, tantos são os meus anseios. Como há de dar certo, mais tarde, com outro rapaz? Oh, como é difícil viver em luta com o próprio coração e a razão; no momento certo cada um falará por si, mas como ter certeza de ter escolhido o momento exato?